Debate sobre Ara Pyau - A Primavera Guarani

Almanaque Virtual almanaquevirtual.com.br - 25/01/2018
Debate sobre o filme "Ara Pyau - A Primavera Guarani" de Carlos Eduardo Magalhães, terceiro longa inédito competindo na Mostra Aurora na 21o Mostra de Cinema de Tiradentes, contando com a presença do diretor, da representante indígena Pará, do crítico convidado Victor Guimarães e mediação por Marcelo Miranda.

A princípio, o cineasta se ateve a explicar as questões de ordem mais técnica da pesquisa que embasou o filme, como o fato a proporção de apenas 1,7 dos 500 hectares reservados em Portaria de forma absurda para abrigar a complexidade indígena que há lá. A demarcação de lá foi uma das primeiras históricas feitas no Brasil, e com vasto e extenso corpo probatório de evidências de que aquela terra pertence a eles, e mesmo assim isso é contestado politicamente. E foi a primeira vez na história em que uma demarcação registrada foi desmarcada e diminuída, sem justificativa. Eles alegaram que os índios não estavam ocupando toda a região, mas o próprio povo de lá não têm o costume de ocupar desta forma. As aldeias costumam abarcar no máximo 100 pessoas. Se aumentar disso, eles criam outra, como costumes cultural de sobrevivência. Tanto que agora um dos líderes, o Davi, está ampliando e registrando cada uma destas Aldeias para comprovar a ocupação espacial.

Após a mediação solicitar que as perguntas tentassem evitar mais questões sobre o dados que estão disponíveis para pesquisa na internet, deu-se seguimento:

O diretor é perguntado sobre a objetificação dos indígenas, sobre uma certa exotificação das personagens, das crianças das mulheres, todos sem nome, sendo que apenas o funcionário da FUNAI e um advogado possuem nomeação. Masno filme não da esses créditos. E coloca certa subjetividade do diretor como um heroi, aimda mais com a trilha sonora épica de salvador... parece que constrói um conceito do próprio diretor e não do povo representado. E isto se mostra também, por exemplo, na cena em que os índios ocupam a torre da antena de ocupação adjacente às terras deles e o diretor coloca uma trilha sonora orquestrada europeia, sem nexo com a história, apenas parecendo dar um caráter épico e salvador.

O diretor pede desculpas que cometeu um erro em não creditar todos os indígenas, assume um erro mesmo, pois correu para finalizar o filme para inscrever em Tiradentes, e esperava acabar só em março. E esperava finalizar de outra forma. Quer dar o reconhecimento necessário. E menciona também que o próprio líder Davi pediu para não citar todos os nomes, pois há várias tribos ali diferentes na causa mostrada, e que eles não gostam de destaque, consideram que todos são iguais. Tanto que havia uma foto no final que não era costume da tribo de Davi, mas que outra tribo ergueu no ombro Davi de forma que o destacava e ele não concorda com isso. Pediu para não mostrar a imagem, mas quando foi liberada na mídia pelos jornais, Davi mudou de ideia e autorizou. Quanto a música, o diretor explica que os próprios índios selecionaram e pediram por ela (mas não especifica se eles haviam escolhido de suas próprias escolhas, ou se o próprio diretor é que deu as opções dentre as quais eles podiam escolher).

A indígena Pará que acompanhou o diretor complementa que os nomes para eles não importam, e sim a mensagem, que precisavam propagar.

Outra pergunta reitera que acredita que existe uma responsabilidade do diretor em fazer um filme político que não significaria apenas ligar a câmera e exibir o que vê. Como o próprio diretor falou que soube do caso e entrou em contato através de um cliente que serviu como ponte, acabou entrando de forma inusitada e parece deslumbrado com o que vê, e pesa a subjetividade. Como se fosse um filme sobre seu olhar, sem uma preocupação coletiva interna, de vivência, de acompanhamento, como parte da responsabilidade de se filmar uma obra política. E cita Tonacci e Vincent Carelli que conviveram por bastante tempo com aa tribos até a câmera poder ser ligada e ser parte daquele momento histórico.

Outra pergunta se acrescentou de que apesar de valer muito o esforço de dar maior publicidade à causa e ao momento histórico da luta indígena que aconteceu, e quase não foi veiculada como merecia, o diretor parece mostrar certo deslumbramento sobre o que filmava, que existe uma responsabilidade inclusive jurídica no que decidiu mostrar. Que repercute no mundo real as consequências do que é filmado.

Ele responde que precisava filmar o momento, e que diferente de outras escolas de cinema em que os cineastas podem dispor do tempo de conviver com os indígenas, pois a ocupação da torre de antena de comunicação em protesto contra a Portaria que queria retirar o direito de demarcação e diminuir suas terras estava acontecendo naquele momento. Em parte, o diretor até admite o deslumbre, e diz que não acha um problema.

Ele diz: "E se eu estivesse deslumbrado? Era tudo muito lindo. E queria botar uma parte de mim também. Há uma subjetividade em se filmar. E se eu quiser ser heroi? E se eu assumir isso? É porque tenho a coragem para isso. Aprendi com os Guarani. Estamos num momento histórico que precisamos disso, de arriscar. "

Neste momento, as frases do diretor suscitaram inúmeras manifestações, mas ele continuou a falar, explicando que entende que aquela foi a forma de ele filmar. Outra pessoa filmaria diferente. Os índios também estão filmando, ele sabe. Mas não havia nenhum filmando lá naquele momento, apesar dehave outra equipe filmando há mais de oito meses e ainda não conseguiu fazer nenhum filme com isso. Enquanto que o diretor e sua equipe conseguiu acompanhar esse caso que foi por volta de setembro de 2017 e já finalizou e projetou um caso tão importante como esse. O diretor aquiesce que há indígenas filmando e que ninguém melhor que eles para filmar a própria terra, e nem precisam de uma escola de cinema para isso. E filmam muitos filmes bons, até filmes que não são sobre questões indígenas, como um que ele viu há pouco tempo que era sobre uma personagem feminina encontrada morta e sobre quem ficava para trás, mas que em nenhum momento possuía o recorte indígena. O diretor fala que era um filme muito bonito e "nem parecia filmado por um diretor indígena.

Neste momento o crítico convidado na própria mesa, Victor Guimarães, interrompe a fala do cineasta, dando voz a certa indignação que se deu com a última colocação equivocada do diretor e pergunta se o que ele quis dizer era presumir que diretores indígenas só poderiam filmar sobre questões indígenas senão só fariam filmes "feios", dentro da lógica que o diretor Carlos Eduardo expôs, e que se fosse o caso ele estaria sendo bastante ofensivo, e pedia que pedisse desculpas.

O diretor Carlos Eduardo fala que não foi isso o que quis dizer (que teria sido mal interpretado). Mas continua o debate dizendo que esta questão do lugar de fala está chegando a extremos, como se qualquer pessoa não pudesse fazer qualquer filme sobre qualquer coisa. A plateia do debate irrompeu em posições conflitantes, no que algumas pessoas fizeram coro de que o "lugar de fala" seria um problema, desviando da questão principal e do próprio sentido da expressão defendido por outras pessoas também na plateia. O diretor retoma a palavra dizendo que se fosse assim não teria filmado seu trabalho anterior "20 Centavos" (2014) sobre a questão do aumento do ônibus, que o jornal Folha de SP o atacou na época dizendo que ele não explicava nada, mas ao mesmo tempo se ele não fosse lá com a coragem de filmar o que estava acontecendo, não haveria um registro daquele momento histórico. E que mesmo A Folha, após atacá-lo, convidou vários especialistas e filósofos e críticos para explicar e (na opinião de Carlos Eduardo) também não explicou nada. Tem de se ir lá e fazer. Assim como com o roteiro de "Escolas em Luta" de que também participou, e os dirigentes das escolas ocupadas não deixavam eles entrarem para filmar a ocupação estudantil, então eles deram a câmera para os próprios alunos se filmarem. E se não o tivesse feito, ninguém o teria e o filme não existiria.

Neste momento, este que vos escreve, representando o Almanaque Virtual, e mais imbuído nas questões levantadas por Festivais anteriores e pesquisas próprias, levantou a questão, no caso do filme atual, "Ara Pyau - A Primavera Guarani", se ele havia dado câmeras para os próprios índios se filmarem, como os vários diretores que assinam "Escolas em Luta" fizeram. Carlos Eduardo responde que sim, deram câmera para eles filmarem nas cenas de Brasília, pois ele não poderia estar lá presente, e quem filmou foi uma representante indígena.

Neste momento o debate, que já estava sendo anunciado como sendo finalizado há duas perguntas atrás, precisou ser interrompido por esgotamento total do tempo (pois já avançara adentro do horário do debate seguinte sobre outros filmes). Porém, editorialmente, não se pode deixar de lado certa responsabilidade e negligenciar o fato de o "lugar de fala" ter sido de certo modo crucificado injustamente no final do debate sem direito à defesa por parte do próprio público presente, que começou a falar todo ao mesmo tempo, visto que a expressão não se encerra na definição negativa dada ali de forma dispersa. O próprio diretor demonstra uma concepção equivocada ao dizer que entregou uma câmera para os próprios indígenas se filmarem apenas porque não estava presente ele mesmo. Pois ele só o fez por ausência física, e não por estimular subjetividade de seus personagens.

E a expressão não tem a ver com exclusão, e sim com inclusão. Não é algo impeditivo sobre quem pode ou não pode filmar ou realizar uma obra, e sim convidativa de com quem fazê-lo, de agregar e envolver diferentes pontos de vista relativos ao lugar retratado, que sejam atravessados pela questão. Que a equipe contenha mais sujeitos vinculados ao que se quer filmar e menos objetos apenas em frente às câmeras. Qualquer um pode filmar sim o que quiser, mas também deve arcar com a responsabilidade que isso acarreta, e a forma como afeta o meio onde filmou.



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Produção Cultural:Cinema, TV, Vídeo

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