Exército dá rajadas de tiros, e indígenas de recente contato pedem investigação sobre morte de jovem

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/ - 23/01/2026
Exército dá rajadas de tiros, e indígenas de recente contato pedem investigação sobre morte de jovem
Pelotão diz ter reagido a ataques vindos de barcos de narcotraficantes na fronteira com a Colômbia
Houve relato de recolhimento de 52 balas de fuzil; um hupda foi encontrado morto e outro ficou ferido

23/01/2026

Vinicius Sassine

Um tiroteio protagonizado por militares do Exército brasileiro, em uma região preservada da amazônia, na fronteira com a Colômbia, envolveu 52 balas de fuzil e duas de revólver, conforme relato em reunião de testemunhas, lideranças e indígenas a par do suposto confronto ocorrido entre militares do 1o PEF (Pelotão Especial de Fronteira) e narcotraficantes no último dia 8.

Os projéteis foram recolhidos e entregues a equipes responsáveis pela apuração sobre o que efetivamente aconteceu na noite do dia 8, ao longo do rio Papuri, onde está a Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas. O relato sobre o recolhimento e entrega dos projéteis foi feito em reuniões, com participação de militares do Exército.

O caso foi noticiado pelo site Sumaúma.

Após as rajadas de tiros, no dia seguinte, um indígena do povo hupda (ou hupd'äh) foi encontrado ferido a bala em uma área na margem do Papuri. O homem foi encontrado por militares do 1o PEF, segundo o Exército. No dia posterior, outro hupda, Sandro Barreto Andrade, 19, foi encontrado morto, por moradores de comunidades próximas.

Os hupdas são um povo de recente contato, com algum tipo de relação com não indígenas estabelecido apenas a partir da segunda metade do século 20, bem posterior à experiência de outros povos da região. Vivem em áreas mais remotas, mais próximas da fronteira -há hupdas também no lado colombiano.

Existe um histórico de marginalização, e comunidades desse povo tentam ganhar mais protagonismo no próprio movimento indígena.

Segundo o relato em reuniões feitas após o tiroteio, quatro hupdas pescavam peixes pequenos, em duas duplas, uma na foz do rio Papuri e outra em um trecho mais acima.

Os indígenas que estavam na foz foram atingidos por diversos disparos que teriam vindo do lado brasileiro, conforme os relatos feitos. Os outros dois conseguiram correr, segundo esses mesmos relatos.

O Exército não admite ter participação na morte e no ferimento aos hupdas, diz ser incorreto afirmar que os indígenas foram baleados por militares e afirma que os disparos dados foram uma reação a um ataque sofrido por homens que estavam em embarcações que trafegavam no sentido Colômbia-Brasil.

A reação foi "legítima defesa a injusta agressão", disse o Comando Militar da Amazônia, em nota.

Organizações indígenas que atuam na região, como a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), elaboram um relatório para ser remetido à Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) em Brasília e para encaminhamento ao Ministério Público, com pedido de investigação.

A Funai e o Ministério da Saúde, pasta à qual está ligado o departamento de saúde indígena que prestou o atendimento ao indígena ferido, também não informaram se existe relação entre as vítimas e o tiroteio.

"A Funai lamenta profundamente a morte do jovem indígena Sandro Barreto Andrade, do povo hupda, e tem prestado assistência", disse, em nota. "A atuação foca em ações de escuta qualificada do povo, mediação de conflitos, ações de proteção territorial e assistência social em articulação junto a outros órgãos quando de competência compartilhada."

O ministério também afirmou que lamenta "profundamente" a morte de Sandro e disse que, após o ocorrido, o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Alto Rio Negro fez "todas as comunicações" aos órgãos competentes.

O indígena ferido, após atendimento e estabilização, foi transferido para Manaus -a distância é de 1.100 km em linha reta. "O paciente está estável, em boas condições clínicas e segue internado, com acompanhamento dos técnicos do DSEI", disse o Ministério da Saúde.

Segundo relatos de uma equipe que visitou o local do tiroteio, havia marcas de balas em árvores e pedras.

Indígenas lamentaram o que teria sido uma demora do Exército em remover o corpo encontrado e o tratamento dispensado para a remessa do corpo até a comunidade Vila Fátima.

Em uma reunião feita com lideranças e indígenas, integrantes do Exército disseram ter recebido denúncias de comunidades do rio Papuri sobre o tráfego de quatro embarcações que transportavam drogas. Uma operação foi feita no dia seguinte, com troca de tiros com os traficantes, segundo o relato dos militares.

Isso teria se dado por volta de 22h30 do dia 8, conforme o Exército, num "patrulhamento de rotina". "A embarcação agressora conseguiu se evadir do local após o confronto. Após isso, os militares retornaram para as instalações do 1o PEF", cita a nota do Comando Militar da Amazônia.

Em novo patrulhamento, no dia seguinte, o hupda ferido por arma de fogo foi encontrado na margem brasileira do rio Papuri, "à retaguarda do local onde a tropa estava posicionada na noite anterior", afirmou o Exército. Os militares prestaram o apoio necessário nos dois casos detectados e adotou medidas para perícia, remoção do corpo e procedimentos médico-legais, disse.

"O Comando Militar da Amazônia, em coordenação com lideranças indígenas e a Funai, está se empenhando para esclarecer os fatos ocorridos em 8 de janeiro", cita a nota. A atuação do Exército, com acesso de indígenas e ribeirinhos a serviços, como de saúde e transporte, "preserva laços de cooperação entre as comunidades e o Estado brasileiro", afirmou o Comando da Amazônia.

A região da Cabeça do Cachorro, no noroeste do Amazonas, engloba a fronteira com Colômbia e Venezuela, e é uma das mais preservadas da Amazônia.

O lugar abriga milhares de indígenas, de 23 etnias. Eles vivem em 750 comunidades de nove territórios, nas imediações de São Gabriel da Cachoeira (AM) e Santa Isabel do Rio Negro (AM).

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/01/exercito-da-rajadas-de-tiros-e-indigenas-de-recente-contato-pedem-investigacao-sobre-morte-de-jovem.shtml
PIB:Noroeste Amazônico

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